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Fazer a diferença

Devadas Krishnadas tem mais de 20 anos de experiencia nos setores público e privado. Como CEO do Grupo Future-Moves, Devadas aporta o seu conhecimento em previsão, planeamento estratégico e formulação de politicas públicas, bem como a sua implementação e avaliação. Já deteve cargos sénior no governo de Singapura, como sejam no gabinete do Primeiro-ministro, Ministério das Finanças e Ministérioda Administração Interna. Confronting Covid-19: A Strategic Playbook forLeaders and Decision Makers é o seu quarto livro.

Fazer a diferença
Tão cedo não esqueceremos o ano de 2020. A Covid‑19 pôs travão às viagens internacionais, colocou um risco significativo e real para a saúde pública e impôs severos impactos económicos por todo o mundo. Nenhum país ficou isento ou por tocar.
A Covid não só é uma pandemia, como veio para ficar. As notícias bem‑vindas de que mais de uma vacina demonstrou eficácia temperam‑se com a realidade dos desafios logísticos da sua distribuição, para não falar das mutações do vírus, que levaram a estirpes mais infeciosas. Contudo, é evidente que alguns países se saíram melhor do que outros na abordagem à Covid.
Em termos latos, a diferença no desempenho parece estar entre o Oriente e o Ocidente, com os países no Oriente a gerirem muito melhor a crise.  China, Hong Kong, Singapura, Nova Zelândia e Taiwan são exemplos de países que se saíram bem, ao passo que Itália, Espanha, o Reino Unido e, mais notavelmente, os Estados Unidos, não conseguiram controlar a situação da Covid. 
Mas a diferenciação não é geográfica. Países como a África do Sul também mostraram maus resultados, como o Japão e a Coreia do Sul, que passaram por múltiplas vagas de infeção. O que explica as diferenças?
A primeira remete‑nos para a qualidade da governação. Governação é algo que vai além do próprio governo; também toca o papel das empresas e da comunidade.
Em países com uma forte relação de confiança social, verificou‑se uma ação mais eficaz com base nas políticas públicas e maior cumprimento das precauções. Essas ações basearam‑se em provas científicas e foram céleres.
A tolerância de incumprimentos das medidas de precaução, tanto oficial como socialmente, mostrou‑se baixa. Estes países saíram-se bem.
Em comparação, onde a relação de confiança social estava em baixa, a ação pública mostrou‑se caótica, incoerente, tardia, e o cumprimento por parte dos cidadãos revelou falta de adesão. Isso levou a uma subida em espiral das taxas de infeção e taxas de mortalidade comparativamente elevadas. 
A segunda resposta remete‑nos para a qualidade da liderança nacional. Líderes como a Primeira‑ministra a Nova Zelândia, Jacinda Ardern, o Primeiro‑ministro de Singapura, Lee Hsien Loong, ou a Presidente de Taiwan, Tsai Ing‑Wen, mostraram‑se empáticos e também abertos, assumindo responsabilidade. Isto garantiu‑lhes confiança e cooperação da parte do público.
Em contraste, as gafes e arremesso de culpas do Presidente Trump e do Primeiro‑ministro Johnson do Reino Unido degradaram a confiança pública.  No caso de Trump, este também promoveu teorias conspiratórias e minou os seus próprios subordinados que lutavam para conter a Covid.
A terceira resposta assenta na cooperação multilateral e em focarmos o desafio apoliticamente. Os países que cooperaram com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e as iniciativas publico‑privadas que liderava, como a Friends of COVAX, contribuíram e beneficiaram da partilha de informações e construção de confiança inter‑governos. E formaram bases de acordos favoráveis para a priorização, a coordenação e a cooperação no desenvolvimento e distribuição de vacinas.
Em contraste, Donald Trump decidiu politizar o desafio da Covid. Acusou a China de o causar, retirou os EUA da OMS e reteve 400 milhões de dólares do financiamento anual para a OMS. Consequentemente, as autoridades dos Estados Unidos tiveram de se debater isoladamente para encontrar soluções para a Covid.
A quarta resposta aponta para os países onde se confiou no método científico e aqueles que trataram o vírus como fraude ou "vírus chinês”.
Os países que optaram por agir com base científica também o fizeram mais célere e pertinentemente. Ao passo que nações como os Estados Unidos e Brasil, cujos líderes ignoraram a crise que se desenvolvia, mesmo quando tinham tempo para preparar uma resposta, e circularam fantasias sobre conspirações em vez de se centrarem nas provas, viram as suas populações sofrer piores resultados. É irónico que, em Dezembro de 2020, os Estados Unidos, superpotência global, tivessem o maior número de infeções e mais elevado número de óbitos e mortalidade.
A quinta resposta prende‑se com a educação. Os países com níveis médios elevados de educação têm populações mais capazes de entender as complexidades do desafio colocado pela Covid e aceitam mais as medidas de precaução, já que podem entender o pensamento científico que lhes está subjacente.
Os países com baixos níveis médios de educação, incluindo muitos estados dentro dos Estados Unidos, tipicamente rurais e sob controlo republicano, mostraram um padrão de tratamento do vírus como fraude e dedicação às teorias conspiratórias.  Tal persistiu mesmo enquanto enfrentavam, quando comparados a estados com maiores níveis de educação, mortalidade e casos de infeção em número superior.
A sexta resposta assenta na vontade política. Os países cujos líderes demonstraram vontade política de tomar decisões difíceis como os confinamentos, vigilância do cumprimento e penalizações do incumprimento, e em mantê-las, sairam‑se melhor do que aqueles cujos líderes agiram timidamente, ignoraram a crise ou foram inconsistentes nas suas políticas.
A resposta final está ligada ao investimento histórico de cada país nos serviços de saúde pública. Aqueles que investiram, como a Nova Zelândia e Singapura, tiveram capacidade e aptidão para rapidamente responder à Covid. Os países que negligenciaram a sua rede pública de saúde, como Itália, Estados Unidos e África do Sul, deixaram‑se ultrapassar pelo contágio.
Assim, explicar as diferenças entre as experiências com a Covid de vários países é tão complexo como o próprio vírus. 
Contudo, não é segredo e as respostas são visíveis. A única pergunta que resta é se os países aprenderão as suas lições e as aplicarão oportunamente para melhor se prepararem para lidar com a pandemia seguinte.
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