Global Risk Perspectives - Monthly insights on geopolitics, trade & climate

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Bernardo Pires de Lima
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18.06.2021

A geopolítica do desporto

Parece que foi ontem, mas passaram treze anos. Recuemos até 2008, ano das grandes viragens estratégicas do pós-Guerra Fria. Nos EUA, a crise do subprime já tinha dado à costa, mas rapidamente evoluiu para a maior hecatombe financeira ocidental desde a grande depressão dos anos 1920 – entretanto a Covid tratou de colocar essa crise no seu devido lugar histórico. Ao mesmo tempo, a Rússia começou o verão a invadir a Geórgia, num assomo de testosterona imperial sobre o Cáucaso e um travão ao alargamento da NATO. Diga-se que resultou. Já em Pequim, começavam os Jogos Olímpicos apoteóticos para um regime que a partir daí se expressou ao mundo em termos muito mais ambiciosos e disruptivos. Não foi à toa: os megaeventos desportivos parecem cada vez mais um espelho geopolítico dos seus anfitriões. E um instrumento na exportação de poder.  

Não há, à partida, nenhum mal nisso. Cada um faz pela vida e joga as cartadas na política internacional o melhor que pode e sabe. A questão estará no nebuloso processo de atribuição prévio e, a jusante, na constante podridão associada à atribulada gestão orçamental milionária que envolve esses eventos. Por um lado, basta acompanhar as polémicas degenerativas no comité olímpico ou na FIFA, para percebermos a falta de transparência e a troca de favores que cosem as decisões da cúpula. Por outro, a corrupção endémica que envolve o novelo interno em muitos regimes que têm sido palco de grandes certames desportivos. Basta recordar os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi (Rússia, 2014) e a derrapagem de 25 mil milhões de euros à mercê de uma corte de empresários a gravitar à volta de Putin, quantos deles atores fundamentais na hierarquia de poder do Kremlin. Ou o impacto político que atravessou a organização e os gastos do Mundial FIFA e dos Jogos Olímpicos no Brasil, em 2014 e 2016. 

Claro que a instrumentalização política dos grandes eventos desportivos não é uma novidade. Basta recordar os Jogos Olímpicos de Berlim (1936) e a argumentação do comité sobre a restituição à Alemanha da sua inserção na comunidade internacional depois da Grande Guerra, tendo então o regime nazi feito tudo para maximizar a demonstração sanguínea do seu projeto e os opositores uma oportunidade para humilhar Hitler, como fizeram os afro-americanos Jesse Owens, Ralph Metcalfe, Archibald Williams, John Woodruff ou Cornelius Johnson, todos medalhas de ouro em várias disciplinas do atletismo.  

Durante a Guerra Fria, os Jogos Olímpicos continuaram a ser palco de afirmação ou repulsa política, com a União Soviética a boicotar várias edições até 1952 e, mais tarde, em 1984, na cidade de Los Angeles. Em sentido oposto, os EUA, entre muitas outras nações, boicotaram os Jogos de Moscovo, em 1980, só tendo o quadro sido normalizado quando a Guerra Fria terminou e o desanuviamento internacional passou a pautar a instrumentalização geopolítica dos megaeventos desportivos. No entanto, é perfeitamente possível identificar, por exemplo, no culto da atuação desportiva dos atletas da antiga RDA uma expressão da rigidez do regime, na medida em que qualquer vitória numa modalidade olímpica prolongava a guerra ideológica então em curso. O mesmo era válido para soviéticos, chineses e jugoslavos, tal como para americanos ou israelitas. Aliás, não é à toa que um massacre como o de Munique, em 1972, contra a comitiva israelita, tenha acontecido precisamente nuns Jogos Olímpicos, que não foram só o primeiro grande evento desportivo a ter lugar na Alemanha desde o final da Segunda Guerra Mundial, como a primeira grande demonstração mediática em que a bandeira de Israel era aí hasteada, ainda por cima na cidade berço do partido nazi, num sinal claro de aceitação de um novo rumo da história. A amplificação televisiva fez o resto.   


Mais recentemente, embora noutro registo, a forma simultaneamente natural e habilidosa como a presidente da Croácia se envolveu na caminhada da seleção até à final do Mundial da Rússia, e o impacto que teve na sociedade croata e na sua elevação política à escala europeia, diz-nos como o desporto pode ser a continuação da política por outros meios. Recordo bem as primeiras imagens que associo à Croácia refletirem uma personalidade internacional pós-jugoslava assente no desporto de massas. Aliás, foi essa a estratégia do presidente Tudman, o primeiro da Croácia independente, que dizia ser o desporto "a primeira coisa pela qual se conseguem distinguir as nações a seguir à guerra”. Lembro-me da final do torneio olímpico de basquetebol em 1992, só perdida para o Dream Team de Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird. Depois, o acompanhamento da entrada de Dražen Petrović no estrelato inatingível da NBA e a comoção com o seu trágico desaparecimento, culto que ainda hoje se vê em Zagreb. Por fim, a chegada da geração de ouro ao auge das grandes competições de futebol, no Euro 96 e no Mundial de 98 (3º lugar), sempre em volta daquele quinteto maravilha campeão do mundo de sub-20, em 1987, então com a camisola da Jugoslávia – Šuker, Boban, Jarni, Štimac e Prosinečki. Foi o desporto que ajudou a solidificar rapidamente a nação croata numa região de guerras. 

Entretanto, a nova geopolítica do desporto iniciada em Pequim (2008), correu todos os BRICS com exceção da Índia. Desde então, a África do Sul organizou o Mundial de 2010, o Brasil o Mundial de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, a Rússia os Jogos Olímpicos de Inverno em 2014 e o Mundial em 2018, e Pequim acolherá os Jogos Olímpicos de Inverno em 2022, ano em que o Qatar, o emirado do Golfo mais afoito na política internacional, organizará o mundial de futebol mais caro da história, envolvido em investigações sobre subornos a delegados da FIFA que resultaram em detenções. Comum a todos? Derrapagens orçamentais, perpetuação da corrupção, ostentação de regime, charme internacional. Onde quero chegar? Aqui: ou o roteiro da geopolítica do desporto atribuída aos BRICS serve um desígnio de normalização dessas nações nas relações internacionais ou apenas o propósito mesquinho de conluio entre dirigentes das organizações e regimes facilitadores de todo o tipo de esquemas. Inclino-me para a segunda via, embora com efeitos na primeira. Debaixo da "organização de excelência” vive um submundo perverso ao desporto e às sociedades anfitriãs. No final, perdemos todos, mas ganham alguns. 



Disclaimer: Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.
Os conteúdos e opiniões expressos neste texto são da exclusiva responsabilidade do seu autor, nunca vinculando ou responsabilizando instituições às quais esteja associado.

Bernardo Pires de Lima (Lisboa, 1979) é actualmente Conselheiro Político do Presidente da República Portuguesa. Além disso, é Investigador Associado do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, analista de política internacional do Diário de Notícias, da RTP e da Antena 1, e presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Foi Investigador do Center for Transatlantic Relations da Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, e do Instituto da Defesa Nacional, em Lisboa. É autor de oito livros sobre política internacional contemporânea, sendo o mais recente Portugal na Era dos Homens Fortes: Democracia e Autoritarismo em Tempos de Covid (Tinta-da-China), publicado em Setembro de 2020. 
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