Global Risk Perspectives - Monthly insights on geopolitics, trade & climate

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Bernardo Pires de Lima
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28.10.2021

A resposta do AUKUS

O rompimento pela Austrália da compra de submarinos a diesel à Naval Group francesa, a rondar os 65 mil milhões de dólares, favorecendo fornecedores americanos e optando por equipamentos de propulsão nuclear, não é só uma facada política, militar e jurídica em Paris, mas uma escolha deliberada sobre quem é, de facto, o principal chapéu da segurança australiana no Indo-Pacífico. Certamente que do ponto de vista jurídico, muita tinta irá correr, mas politicamente a escolha foi óbvia: os EUA não são apenas o único garante magnânimo da segurança asiática preocupada com a ascensão chinesa, como o aliado indispensável na grande competição tecnológica. Isto é uma dupla machadada na Europa, simbolizada na França enquanto Estado europeu com o orçamento mais apetrechado em defesa, e na incapacidade do velho continente em ser tecnologicamente mais competitivo. Há lições a tirar. Uma delas é que precisamos, individualmente e no plano da EU, de sermos mais ambiciosos nas duas dimensões. O choque provocado em Paris não é involuntário. França terá a presidência do Conselho da UE no primeiro semestre de 2022 e também eleições presidenciais nessa altura, sendo que não é apenas Marine Le Pen a defender uma rutura transatlântica em favor, por exemplo, de uma aliança com Moscovo, o que deixa Macron desconfortável quando o próprio considera inaceitável a pressão de Washington sobre Camberra no processo dos submarinos. Ou seja, este pode ser um tema de política interna relevante. 
Mas o ângulo mais importante resulta do argumento que levantei sobre o AUKUS ser um movimento de compensação rápido à retirada do Afeganistão. Para os EUA era importante dar um sinal. Taiwan é estrategicamente sensível, bem como Hong Kong, o que exigiria uma passada mais cuidada para não endurecer a posição de Pequim. Assim, para os EUA, a Austrália servia o propósito de segurança à contenção chinesa, permitindo responder à agressividade bilateral sentida em Camberra nos últimos anos e também englobar o Reino Unido, que precisava de um movimento rápido de realinhamento pós-Brexit que não só desse prioridade estratégica ao Indo-Pacífico como, sobretudo, relançasse a relação bilateral com os EUA. Por outras palavras, o acordo de fornecimento dos submarinos nucleares serve os interesses dos três envolvidos, enfraquece a posição estratégica europeia (que certamente condicionará a aprovação do acordo comercial entre a UE e a Austrália) e emite um sinal indispensável a Pequim nesta fase pós-Afeganistão. Contudo, Washington arrisca delapidar a confiança transatlântica, em particular com a França, o que levará provavelmente a algum sinal compensatório, mesmo que de Berlim a reação tenha sido tímida – tampouco foi tema da campanha eleitoral -, ou de Roma não se ter ouvido, ao invés das críticas dos líderes das instituições comunitárias, o que em Washington tem um peso relativo. Ato contínuo, Índia e Japão valorizaram a iniciativa, tendo a China pedido de imediato a adesão à parceira comercial transpacífica, um tratado de livre-comércio asiático imponente, do qual os EUA recusaram entrar num dos assomos anti-Obama que marcaram as decisões de Trump.




Tudo isto deve ser analisado, e bem, do ponto de vista geopolítico, securitário e no quadro das dinâmicas crescentemente competitivas entre as grandes potências. Esta trilogia vai marcar a década, não é um acaso. Mas também pode ser visto como um passo previsível dado por uma administração americana que, sem especiais pontes com os republicanos no Congresso, precisa de manter permanentemente acesa a chama da contenção chinesa para colher apoios fundamentais à aprovação de grandes pacotes na legislação interna pós-Covid. A política internacional não é mais do que um ciclo interminável de dinâmicas contínuas interligadas. 



Disclaimer: Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.
Os conteúdos e opiniões expressos neste texto são da exclusiva responsabilidade do seu autor, nunca vinculando ou responsabilizando instituições às quais esteja associado.

Bernardo Pires de Lima (Lisboa, 1979) é actualmente Conselheiro Político do Presidente da República Portuguesa. Além disso, é Investigador Associado do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, analista de política internacional do Diário de Notícias, da RTP e da Antena 1, e presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Foi Investigador do Center for Transatlantic Relations da Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, e do Instituto da Defesa Nacional, em Lisboa. É autor de oito livros sobre política internacional contemporânea, sendo o mais recente Portugal na Era dos Homens Fortes: Democracia e Autoritarismo em Tempos de Covid (Tinta-da-China), publicado em Setembro de 2020. 
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