Global Risk Perspectives - Monthly insights on geopolitics, trade & climate

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Nuno Rodrigues
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24.01.2022

Erupções vulcânicas

Erupção do vulcão dos Capelinhos 

Sábado, 27 de Setembro de 1958, Açores. A terra tremia consecutivamente há 12 dias, registando-se aproximadamente 200 sismos de intensidade não superior a grau V da Escala de Mercalli, e eis que subitamente, às 6h45, a água do mar começa a fervilhar a cerca de 300 metros da Ponta dos Capelinhos. 

Nos 3 dias subsequentes a atividade aumenta verificando-se a emissão de jatos negros de cinzas vulcânicas até altitudes superiores a 1000 metros, e a existência de uma nuvem de vapor de água ultrapassando altitudes na ordem dos 4000 metros. Passados alguns dias, a emissão de gases e as explosões de piroclastos diminuem de intensidade e são rapidamente sucedidas por explosões violentas gerando bombas de lava e libertando grandes quantidade de cinzas para o ar, que destruíram culturas agrícolas e forçaram a evacuação das populações das zonas mais próximas do vulcão, enquanto que torrentes de lava escorrem para o mar.  

Com a acumulação de detritos formou-se uma pequena ilha que chegou aos 100 metros de altura e ficou conhecida como Ilha Nova. Nos momentos de acalmia, esta nova estrutura era devorada pelo mar e várias outras ilhotas nasceram e desapareceram durante os meses de atividade do vulcão. 

Após sete meses de erupção no mar abriu-se uma fenda em terra, na parte leste do cone do vulcão, onde era possível ver repuxos de lava incandescente que subiam a vários metros de altura. 

13 meses após o seu aparecimento o vulcão começa a perder força e em 24 de Outubro acontece a última libertação de lava. 

Este vulcão, o vulcão dos Capelinhos na ilha do Faial, Açores, é aquele que está mais presente na memória dos açorianos e de todos os portugueses, pela destruição e pela vaga de emigração que provocou. 

A última erupção vulcânica registada na região ocorreu, no entanto, em 1998, ao largo da ilha Terceira, junto à freguesia da Serreta. Foi uma erupção submarina e não provocou estragos. 

 

Atividade vulcânica nos Açores 

Existem 26 vulcões ativos nos Açores, sendo que oito deles são submarinos. Das nove ilhas do arquipélago, apenas Santa Maria não tem qualquer vulcão ativo sendo que nas demais ilhas existem estruturas vulcânicas adormecidas, mas que podem entrar em erupção a qualquer momento. Não existem outros vulcões em território Português. 

A atividade sismo vulcânica nos Açores é monitorizada pelo CIVISA - Centro de informação e vigilância sismo vulcânica dos Açores, e pelo Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos (IVAR), com base em três redes: uma sísmica, uma geoquímica de gases e uma de GNSS (sistema de navegação por satélite), cobrindo a totalidade do arquipélago.  

 

Exposição do setor segurador à atividade vulcânica 

Não existe informação fiável sobre qual terá sido o nível de transferência para o mercado Segurador do evento vulcânico de 1958 nos Açores. 

Atualmente e não existindo em Portugal, como noutros países europeus, um Fundo Catastrófico ou de cobertura de Fenómenos Sísmicos, apesar de, neste último caso, ter havido várias tentativas nesse sentido, a única proteção disponível é através de seguros privados. 

No que diz respeito ao mercado de seguros Patrimoniais em Portugal, os danos materiais decorrentes de erupções vulcânicas estão por norma englobados no âmbito da cobertura de Fenómenos Sísmicos, assim como as respetivas consequências, entre as quais terremotos. A Perda de Lucro causada por este tipo de eventos da natureza pode estar coberta pelo seguro de Perdas de Exploração, em conjugação com a contratação simultânea de Fenómenos Sísmicos. 

De realçar que em Portugal a cobertura de Fenómenos Sísmicos é por norma uma cobertura de contratação facultativa.  

Em termos do preço do seguro, o mercado tem como prática a adoção de uma tarifa específica desenvolvida e recomendada pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS), a qual se baseia numa segmentação por zona, tipologia de bem seguro e datas de construção dos Imóveis. De referir que praticamente nenhum Segurador a operar em Portugal retêm o grosso da exposição sísmica (e consequentemente exposição vulcânica) dos seus portfolios, optando por transferir tal para os mercados internacionais de resseguro. As franquias para sismos e erupções vulcânicas típica flutuam entre os 2% a 5% do capital seguro por local de risco, o que significa que os riscos sísmicos e vulcânico não podem ser totalmente transferidos para um contrato de seguro, obrigando a retenções da parte dos próprios Segurados. 

Lamentavelmente e à semelhança da vasta maioria de mercados de seguros, o gap de proteção é bastante expressivo, agravado em Portugal pelos níveis altos de iliteracia em matéria de seguros, baixa perceção do risco (inclusive nos Açores) e um baixo poder de compra. Este último agravado pelo facto da cobertura de sismos e erupções vulcânicas ser percecionada como dispendiosa podendo ter um custo superior, a título comparativo, a todas as demais coberturas típicas de um seguro Multiriscos patrimoniais. De destacar que não existe qualquer obrigatoriedade legal em matéria de contratação de seguro para as coberturas de Fenómenos Sísmicos/Erupções vulcânicas. 

Em zonas de maior exposição, como é o caso do arquipélago açoriano, e/ou perante construções de maior antiguidade, uma boa fatia dos Seguradores tenta minimizar ao máximo a subscrição de risco sísmico e vulcânico, especialmente os seguradores internacionais. Tal resulta em baixos níveis de penetração da cobertura de Fenómenos Sísmicos e risco vulcânico, e consequente fosso de proteção expressivo, que poderá eventualmente ser contrariado pela criação de um fundo sísmico e de risco vulcânico com base numa parceria público-privada, de adesão obrigatória. 

Ao nível do seguro Automóvel, mais concretamente da cobertura de Danos próprios é possível a contratação da cobertura de Fenómenos da Natureza, a qual inclui Erupções vulcânicas, existindo neste ramo um pouco mais de oferta e competitividade no mercado nacional. O mesmo se verifica ao nível de seguros de Acidentes Pessoais. 




Por Nuno Rodrigues, Diretor de Riscos Patrimoniais e Engenharias da MDS Portugal
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