Global Risk Perspectives - Monthly insights on geopolitics, trade & climate

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Bernardo Pires de Lima
23.02.2022

Putin, estratega previsível?

A Rússia, tal como a Turquia, faz parte da História moderna da Europa desde a era dos principados, passando pelos impérios, pelos Estados-nação e acabando nos modelos de integração atuais. A sua afirmação geopolítica é na Europa, mesmo que a sua astúcia estratégica continue a olhar para as oportunidades e ameaças vindas da Ásia.  

A Rússia é a mais previsível das grandes potências contemporâneas, a terra é esmagadoramente asiática, mas a cabeça mergulha na continentalidade europeia. Acha-se humilhada, maltratada, espoliada, desprezada por quem já foi seu par nas desventuras da geopolítica. O excecionalismo russo é paradoxalmente conservador e revisionista, angelical e brutal, metódico e impulsivo, manipulador e frágil. Vladimir Putin não é mais do que a sua maior síntese: crença num estatuto e num propósito singular universal; devoção à fé cristã ortodoxa; convicção na autocracia. Neste sentido, a Rússia é superior a qualquer dicotomia Este-Oeste, tal a dimensão eurasiática sem paralelo, devendo por isso estar imune ao cânone individualista e liberal ocidental, que não é mais do que uma fonte de imoralismo, sendo ainda herdeira de um acervo cultural tão sólido que deve permanecer alicerce da grandeza do Estado. O nacionalismo e o melodrama de Putin são dimensões estruturais da sua ação, assente num eixo de humilhação” contínuo que vai desde a desagregação da União Soviética, passa pela liberalização russa influenciada pelo modelo americano, pelos alargamentos da NATO e da União Europeia a Leste, e pelas tentativas de tornar mais autónomo o mercado europeu de energia, incomportável para quem quer assegurar o fervor de uma grande e orgulhosa Rússia.  

Putin entra no KGB em 1975 e praticamente toda a sua carreira é feita em Dresden, na Alemanha de Leste, onde trabalha de perto com a Stasi no recrutamento de informadores locais. Recuperou a terminologia da polícia política leninista (chekist) e assumiu o culto por Yuri Andropov, o homem que durante mais tempo liderou o KGB. Duas razões explicam-no. A primeira é o traço estrutural do aparelho de Estado que faz a transição da União Soviética para a Federação Russa: uma nomenclatura de burocratas e operacionais de espionagem que atua nos planos político e militar e tem garantido a continuidade da corte em redor do Kremlin. Há quem fale em mais de três milhões de russos perfeitamente integrados nesta muralha defensora do regime, os siloviki, também vista como a melhor escola de ascensão na competitiva cadeia de poder.  

A segunda resulta do exemplo particular de Andropov, o homem que revigorou esse sentido excecional do KGB, associando-o às características naturais do bom servidor da "Mãe Rússia” e da sua projeção imperial. Andropov foi, para Putin, um transformador, um líder carismático, implacável perseguidor da traição ao Kremlin, sem contemplações com dissidências ou desvios democráticos, ele que tinha testemunhado os seus perigos em Budapeste, quando lá serviu como embaixador em 1956, e a Primavera de Praga, quando liderou a dura resposta soviética. Andropov ainda sucedeu a Brezhnev na chefia do Partido Comunista e, por via disso, da União Soviética, mas a sua morte ao fim de quinze meses de mandato só adensou o mito: para muitos, Putin incluído, tinha morrido cedo demais. Era preciso prolongar o legado e o exemplo acabou por se enraizar na ideologia do aparelho de Estado pós-soviético, pelo que Putin não precisou de inventar nada, só adaptar os conceitos à velocidade a que o atual exercício do poder passou a estar escrutinado. Em 1999 é nomeado por Ieltsin para a chefia do governo e, quando a presidência caiu em desgraça e a saúde daquele definhou, viu a passagem de testemunho ser feita em regime hermético: Ieltsin abdicou na última noite desse ano e Putin foi coroado sucessor.  

 
 Fonte: The Guardian  


Esta chegada meteórica ao topo da Rússia pós-soviética foi feita por duas vias. Uma, teve em conta a experiência ganha em São Petersburgo, quer no plano político, quer no controlo de recursos financeiros e que lhe valeram acusações de apropriação indevida. Essa condição de dominador de uma imensidão de propriedades estatais dentro e fora da Rússia deu-lhe acesso a recursos, controlo administrativo e fez dele um homem temido na floresta de clãs do poder moscovita aos quais Putin não pertencia. Para vingar na capital, tinha de ter mais trunfos na manga do que todos os outros juntos. A hipótese do seu uso, a par do acesso a informações sobre a corte de Ieltsin, fez dele o mais poderoso dos espiões na reserva.  

A outra, renegando Ieltsin. Putin foi sempre mais um self-made man dentro das potencialidades do aparelho de Estado do que propriamente um protegido do russo em quem o Ocidente mais acreditou. Esse percurso aproximou-o de uma certa ideia de "novo russo”, alguém que não possuía linhagem na nomenclatura de Estado, mas que sabia movimentar-se com discrição numa difícil hierarquia em ressaca pós-imperial. Putin só precisava de transformar essa descrição apoteótica em carisma nacional e para tal apoiou-se em duas dimensões: na insegurança interna como ameaça da unidade territorial russa (terrorismo checheno) e na exaltação do fantasma externo, encarnado no avanço das instituições ocidentais pelo antigo Pacto de Varsóvia dentro.   

Afinal, o que definiu esses anos de Ieltsin tão dramatizados por Putin? Em primeiro lugar, a ideia de humilhação moral aos pés do Ocidente. A desagregação da União Soviética – que Putin definiu como "a maior catástrofe geopolítica do século XX” – não foi só um recuo geográfico, mas a abdicação de um modelo político. A rápida adesão aos princípios "do consenso de Washington” teve um impacto desastroso numa economia impreparada, levando a uma brutal crise financeira em meados dos anos 1990. Nessa altura, com a liberalização económica em colapso e os cofres praticamente secos, o país estava paralisado, a fuga de capitais era dramática e a sociedade vivia à beira de um conflito grave. O preço do petróleo baixara e a crise financeira asiática contribuiu para a redução da procura energética russa. Os alargamentos da NATO a Leste (1999 e 2004) expunham a fragilidade dos movimentos russos: sem ordem interna, crescimento económico, aparelho militar modernizado e um restabelecimento da centralidade do Kremlin no orgulho do país, Moscovo não tinha força para travar a dinâmica do "momento unipolar” americano. Não era só uma certa história que parecia terminada, era outra que começava a ser escrita por um só autor: Washington. Putin não queria ser o depositário dessa humilhação nacional. 

Em segundo lugar, uma desordem galopante. Não há sentimento mais enraizado entre os russos do que a noção de proteção a partir de um centro paternal, forte, preferencialmente equitativo, garante da dimensão territorial, da história russa e do seu excecionalismo antropológico. Putin é isto: o representante da vontade geral russa manipulando os seus medos e ansiedades. Dá-lhes ordem quando disciplina a economia e captura oligarcas repentinos. Restitui-lhes a esperança quando revisita um passado, para muitos glorioso, recuperando o hino soviético e promovendo grandes planos de investimento na saúde, educação, infraestruturas, agricultura ou assistência à maternidade e à velhice. Promete-lhes proteção quando derrota o terrorismo independentista na Chechénia, Inguchétia e Daguestão. Fecha o punho de ferro quando é implacável com o terror no teatro de Moscovo, na escola de Beslan ou na captura das "viúvas negras” que se fazem explodir no metro da capital. Os russos, que já se consolavam no colo da "Mãe Rússia”, encontravam agora um pai protetor.  

Putin foi eleito e reeleito, saiu e voltou, "por uma livre, próspera, forte, civilizada e orgulhosa Rússia”. Para isso precisou de inflacionar o preço do petróleo e do gás para encher os cofres públicos e condicionar os países compradores. O crescimento económico permitiu-lhe ir renovando algum do obsoleto aparelho militar e dizer a Washington que os 30 milhões de pessoas etnicamente russas a viver na vizinhança estavam sob proteção de Moscovo, num arco que vai da Bielorrússia à Ucrânia, da Moldávia à Geórgia, da Estónia à Letónia ou ao Cazaquistão.  

O anúncio da morte da História foi, como sabemos, manifestamente exagerado. À condescendência com os anos de Ieltsin seguiu-se o fechar do cerco nos anos de Putin. Sucederam-se os alertas com os alargamentos da NATO, procurou-se um eixo com Paris e Berlim contra o unilateralismo dos EUA no Iraque, houve intransigência contra o voluntarismo da Geórgia, algum regozijo com a queda do Lehman Brothers, fechou-se ciclicamente a torneira do gás à Ucrânia, promoveu-se a união aduaneira com a Bielorrússia e o Cazaquistão, instituiu-se um agressivo capitalismo de Estado, uma imagem guerreira mas racional do Presidente, e a defesa dos seus interesses no Médio Oriente e na moldagem dos EUA na guerra civil da Síria. À beira dos 70 anos, Putin continua a querer ser o Hércules onde esbarra a superpotência, o selo de garantia unificadora interna, o estratega geopolítico na defesa das minorias russas na Europa, o senhor da grande Rússia entre uma China imparável, mas estrategicamente alinhada, uma Europa a tentar encontrar as cartas certas da geopolítica e uns Estados Unidos em retraimento de umas zonas e reafinação noutras. A anexação da Crimeia e a manutenção de um conflito no Donbass ucraniano, desde 2014, não devem surpreender ninguém minimamente atento. Os mais de 80% de popularidade alcançados logo a seguir (igual à atingida após a guerra da Geórgia) são apenas o corolário deste axioma: o bafo do urso no exterior fortalece as garras em casa.  

 

 
E é precisamente quando a situação definha internamente que as piores intenções aguçam o espírito além-fronteiras. A taxa de aprovação estava em outubro de 2021 no nível mais baixo desde 2017 (53%), a demografia declina, a economia não arranca, a dependência estrutural dos hidrocarbonetos desamarra-a do futuro, a vontade da emigração entre os jovens acelera, a vacinação não é alta para um país produtor de vacinas, as manifestações nas grandes cidades vão disputando a hegemonia putinista, onde aliás o custo de vida acentuou as desigualdades, a liberdade de imprensa e as oposições vão sendo abafadas, quando não eliminadas, e circunda na sua vizinhança um crescente assomo de democratização - na territorialmente imponente Bielorrússia, na Ucrânia como principal entrada energética para a UE, na abundância petrolífera do Cazaquistão - que ameaçam a solidariedade autoritária que fará funcionar um espaço estratégico idealmente mais homogéneo e liderado pelo Kremlin. É a construção desta união euro-asiática que fará da Rússia uma grande potência equilibradora da força de Pequim e de Washington. O falhanço deste plano resultará apenas na continuação de uma ilusão de poder global. E normalmente, só o recurso à ameaça militar sobre terceiros, para mais dispondo de poder nuclear, permite mascarar um poder mais ilusório do que consistente. É também esta a síntese que faz de Putin tão fino estratega como hábil ilusionista da política internacional.  

 


Disclaimer: Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.
Os conteúdos e opiniões expressos neste texto são da exclusiva responsabilidade do seu autor, nunca vinculando ou responsabilizando instituições às quais esteja associado.

Bernardo Pires de Lima nasceu em Lisboa em 1979. É investigador no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, analista de política internacional na RTP e Antena 1, consultor político do Presidente da República, presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, e ensaísta, tendo publicado, entre outros, A Síria em Pedaços, Putinlândia, Portugal e o Atlântico, O Lado B da Europa e Portugal na Era dos Homens Fortes. Foi visiting fellow no Center for Transatlantic Relations da Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, investigador associado no Instituto da Defesa Nacional, colunista do Diário de Notícias e analista na TVI. Entre 2017 e 2020 liderou a área de risco político e foresight na FIRMA, uma consultora de investimentos exclusivamente portuguesa. Viveu em Itália, na Alemanha e nos EUA, mas é a Portugal que volta sempre. 
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