Insights

Voltar aos insights
Paula RiosHighdome PCC | Executive Director
Paula Rios
21.10.2019

A Terra está zangada

Longe vão os tempos em que utopias futuristas, em livros deficção científica e filmes cheios de planetas exóticos e "aliens” façanhudos,nos faziam pensar que, um dia, poderíamos abandonar o planeta Terra e encontraruma nova casa noutro local, algures nesta ou numa galáxia distante. Mas jápercebemos que, quimeras à parte, não temos outra casa para onde nos mudarmos.

Perante este facto indiscutível, seria sensato que os seres humanos tivessemcomeçado a tomar medidas para evitar que o ambiente do nosso planetacontinuasse a deteriorar-se.

Contudo, nos últimos 20 ou 30 anos, pouco mais sefez do que "empurrar com a barriga”. Infelizmente, e apesar de acordos como ode Paris, alguns dos países que mais contribuem para a degradação do ambiente,como os EUA, continuam a fazer de conta que nada se passa. Dirigentes mundiaisde relevo chegam mesmo a negar o fenómeno do aquecimento global.

No entanto, adura realidade é por de mais evidente, como testemunham os glaciares quedesaparecem, os invernos quentes e o granizo em pleno verão, os incêndios nasflorestas da Amazónia e África ou os furacões consecutivos.

Não entrando emdetalhes, já amplamente divulgados na comunicação social, diria apenas que, seum aumento de 2ºC da temperatura global em relação à era pré-industrial éconsiderado pelos cientistas como o limite acima do qual as consequências serãocatastróficas para a vida no planeta, a previsão de que esse aumento se possasituar entre os 3ºC e 5ºC até 2100, caso se mantenham as emissões de gasescom efeitos de estufa, seria fazer soar os alarmes para levar a uma atuaçãourgente e radical. Mas sabemos que há muitos lobbies instalados, fortíssimos, aque se acrescenta a própria resistência do ser humano em mudar comportamentos.

A verdade é que, se muito podem e devem os Estados fazer aeste nível, os indivíduos e as empresas devem também dar o seu contributo. Nãosó através do ativismo – como é exemplo a jovem Greta Thurnberg - mas tambématravés da alteração de comportamentos e da promoção de atitudes que levem aessa mudança. Desde logo, retirando da discussão ideias preconcebidas, mas quenão correspondem à realidade.

De acordo com o Prof. Filipe Duarte Santos, especialista emAlterações Climáticas, é errado pensar que a preocupação com o ambiente entravao desenvolvimento económico. Afirma que se trata precisamente do contrário: autilização sustentável dos recursos naturais irá beneficiar as economias, o queacontece nos países onde a reciclagem e a economia circular são já uma realidadesignificativa. Defende a reciclagem das matérias-primas, o retorno aos produtoscom durabilidades longas e o consumo dos recursos naturais adequado à suasustentabilidade.

Para além de um modelo de desenvolvimento assente emenergias renováveis e não nos combustíveis fósseis, prevê a necessidade dealteração dos hábitos alimentares, com uma drástica redução do consumo decarne, uma vez que as explorações pecuárias são responsáveis por uma partemuito significativa das emissões de metano, um dos gases com efeito de estufa.É também hoje já um dado adquirido que terá de haver uma alteração radical aonível da gestão da água, considerada "o petróleo do séc. XXI”.

Enquanto especialistas e entidades que assumem risco, cabeigualmente aos seguradores e resseguradores desempenhar aqui um papelimportante. No sector, vários especialistas consideram o risco de alteraçõesclimáticas como um dos maiores riscos de 2019, mais ainda do que os riscoscibernéticos, de instabilidade financeira ou de terrorismo.

O setor tem um papel importante a desempenhar ao nível daprevenção, em inúmeras vertentes, nomeadamente, a do planeamento da construçãojunto de zonas costeiras ou de inundações, de estruturas mais resilientes (sejaà água, a terramotos, etc.).


Tendo em consideração que, em 2017, os desastres naturaiscausaram 340 mil milhões de dólares de danos – sem esquecer os danos indiretos,como no caso de cadeias de fornecimento (supply chain) – e face ao preocupanteaumento da sua severidade e frequência, os seguradores necessitam de utilizartecnologia mais sofisticada para desenvolver modelos mais precisos, quepermitam uma análise mais fina. 


Como é o caso de uma ferramenta de avaliação dorisco de inundação, recentemente desenvolvida por um dos maiores players domercado, que, com um custo eficiente e um elevado grau de precisão, utilizadrones para captar dados, transformando-os numa visualização realista do localem causa, permitindo assim uma simulação interativa que mostra as possíveis vulnerabilidadesem termos de risco.

Com efeito, o método tradicional de prever o futuro atravésda análise do passado já não basta, uma vez que o próprio presente é jáaltamente imprevisível, com fenómenos totalmente inusitados que desafiam as leisda natureza há muito conhecidas e estabelecidas. 


Uma tendência previsível é ado aumento dos custos de transferência do risco, sendo desejável que osgovernos se envolvam progressivamente em programas de seguro catastrófico, comojá acontece em vários países, por exemplo através de "pools”. Também será deprever que os seguradores criem incentivos aos seus clientes no sentido de queestes se empenhem ativamente na prevenção e minimização dos danos causadospelos desastres naturais.


Mas o papel do setor não fica por aqui. Os grandes gruposseguradores e resseguradores estão a assumir políticas claras relativamente àsalterações climáticas, trabalhando com os clientes e outros parceiros, de formaa aumentar a resiliência e as soluções de prevenção, quer para esses clientesem particular quer para as comunidades em geral; desenvolvendo soluções deseguro e de gestão de risco para as novas tecnologias, modelos e soluçõesnecessárias para a transição para uma economia baixa em carbono; reduzindo osseus investimentos em combustíveis fósseis e minimizando o impacto ambiental dassuas operações.


E também criando soluções de seguro sustentáveis, como segurosagrícolas (de colheitas, de florestas), seguros para veículos elétricos ebicicletas elétricas; seguros de danos ao ambiente e para energias renováveis, comoos seguros fotovoltaicos ou de turbinas eólicas.


No caso das empresas, haveráseguros feitos à medida para grandes projetos de energias renováveis e edifíciosenergeticamente eficientes. Para particulares, preveem descontos no seguro automóvelpara viaturas eficientes e elétricas, seguros patrimoniais para painéis solarescolocados no telhado das residências e produtos de investimento que permitamaos clientes aplicar o seu dinheiro em fundos que contribuam para odesenvolvimento sustentável.

Enfim, muito mais haveria a dizer sobre este tema complexo,como complexa é a realidade de viver neste mundo tumultuoso do séc. XXI. Ao contráriode um mundo asséptico previsto nos filmes e séries de "sci fi”, ou até de basesimaculadas na superfície da lua (lembram-se do "Espaço 1999”, que no final dosanos 70 nos fazia sentir a anos-luz do fim do século?), o nosso mundo estásujo, poluído, contaminado – e em processo de aquecimento global; já li alguresque "a Terra está zangada”. O que, ou quanto, podemos fazer para a apaziguarestá nas nossas mãos. Como pessoas, como cidadãos, é hora de agir.

O setor segurador, como sempre – e disso não tenho qualquerdúvida – fará, já está a fazer, a sua parte.


Publicado no Vida Económica
Política de Cookies

Este site utiliza Cookies. Ao navegar, está a consentir o seu uso.Saiba mais

Compreendi
Descubra o mundo MDS