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Paula RiosExecutive Director MDS Portugal
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08.02.2019

Mobilidade integrada: ficção científica ou realidade?

O exercício de imaginar ofuturo é fascinante mas impreciso. Quando vi em 1982 o filme "Blade Runner”,cuja acção decorria em 2019 – à data um futuro bem distante – lembro-me deficar fascinada com os replicants (robots"quase” humanos) e com os veículos voadores.

Quando o revi recentemente, fiqueiquase chocada por constatar que o argumentista não tinha conseguido prever queem 2019 já não haveria fotos em papel como aparecem no filme, que todosteríamos as nossas fotos nos telefones…


Uma nova mobilidade

Embora ainda não nos desloquemosem veículos voadores, como no filme, a verdade é que a mobilidade está a sofreruma profunda transformação.

Esta mudança de paradigma está ser provocada por factores como: ainsustentabilidade da actual situação, em que os congestionamentos de tráfegolevam a níveis de poluição e perdas económicas elevadas; do ponto de vistasocial, a emergência da sharing economy,que permite racionalizar recursos; ou, ainda, a evolução tecnológica, quer aonível da utilização de plataformas que permitem e facilitam essa mesma partilha,quer ao nível da utilização de veículos com fontes alternativas de energia.

Seas cidades continuarem a crescer – e a OCDE prevê que 70% da população mundialviverá em áreas urbanas em 2050 – é evidente que algo vai ter de mudar, sobpena de as cidades colapsarem.

No Web Summit de 2018, numpainel sobre "Smart cities e o futuro”dizia-se que "nas cidades, as pessoas não irão escolher o tipo de veículo, masonde querem ir, e só depois os meios mais adequados para os levar até lá”.

Tambémficou claro que as cidades estão a ser redesenhadas para os cidadãos, não paraos veículos. Esta reflexão implica juntar um conjunto de stakeholders, como fabricantes de veículos, seguradoras,universidades e, naturalmente, cidadãos, sendo que se considera que o maior desafioé o de todos trabalharmos em conjunto na construção das cidades que querermoster.

Estamos hoje perante umconjunto de tendências que impactam profundamente os sistemas de mobilidade nascidades de todo o mundo, contribuindo para o desenvolvimento de uma cada vezmaior integração.

A mobilidade partilhada, os veículos autónomos, o aumento dautilização de veículos eléctricos, a conectividade e a Internet das coisas, alteraçõesao nível do sistema público de tráfego e das infraestruturas, adescentralização dos sistemas de energia e a regulamentação são algunsexemplos.

Mas também há que ter em conta os sistemas inovadores de parqueamentoe os sistemas de tráfego inteligentes, ou os pagamentos integrados e equipamentosde apoio a veículos eléctricos.

Obviamente todas estas novas formas demobilidade têm de ser adaptadas caso a caso, pois as cidades são diferentes. Porexemplo, as bicicletas, que funcionam muito bem numa cidade plana, já não serãotão populares em cidades acidentadas.


Vantagens e desafios

Numa perspectiva geral, a transiçãopara sistemas de mobilidade integrada deverá melhorar a vida dos moradores dascidades em muitos aspectos, sendo desde logo o factor ambiental um dos maisrelevantes.

Uma redução das emissões de dióxido de carbono reduzirá problemasde saúde como doenças respiratórias ou ataques de coração, agravados pelapoluição do ar.

Adicionalmente, a redução de acidentes devidos a erros humanosfará aumentar a segurança dos cidadãos, para não falar nos problemas de stressdevidos à congestão do tráfego.

No entanto, também haverá algumas consequênciasnefastas, como a redução de emprego para condutores e mecânicos. Todos estesprós e contras terão de ser devidamente tidos em conta pelos responsáveis.

Hoje, existe já uma visãobastante consensual relativamente ao transporte integrado no que respeita àmobilidade nas cidades do futuro.

Mas para que a mesma possa ser materializadaserá essencial a interacção entre entidades públicas e privadas, incluindo porexemplo a criação de um título de transporte multimodal que abranja, desde otransporte público "tradicional” (como metro e autocarros, já hoje geridos pordiferentes entidades) até às scooters, trotinetas e outros veículos partilhados, incluindo aqui os veículosautónomos.

Acima de tudo, o que é preciso definir é onde queremos chegar, poispoderá haver várias formas e meios para atingirmos o nosso destino.

E os seguros?

Finalmente, qual o papel doseguro neste "admirável mundo novo” da mobilidade integrada? Sim, porque asmudanças ao nível da mobilidade terão certamente um impacto significativo aonível dos seguros.

Os desenvolvimentostecnológicos como a telemática estão alterar a subscrição do risco. Ao serpossível contar com informações detalhadas sobre o comportamento doscondutores, os prémios de seguro são adaptados ao risco real, permitindo um elevadograu de customização dos produtos. 

Por outro lado, a crescente popularidade do vehicle sharing está a criar novosmodelos de cobertura de seguro, como payas you drive, abrindo a possibilidade aos seguradores de estabelecerparcerias com operadores de mobilidade. E porque não, imaginar o seguroincluído já no custo do título de transporte multimodal, "fechando o círculo”de um conjunto de serviços ligados ao transporte dos cidadãos…

Outra realidade é que orisco em si se vai alterar profundamente. Os veículos autónomos vão, prevê-se,reduzir os acidentes em cerca de 90%, mas levantam novos desafios: quem são osresponsáveis em caso de acidente com o veículo autónomo?

O proprietário doveículo, o fabricante do produto final ou de partes componentes, a empresa quecria o software de inteligência artificial, ou quaisquer outros intervenientes?

O número de acidentes vai diminuir, mas quando ocorrerem serão mais graves e adeterminação de responsabilidades será muito complexa, segundo responsáveis dosector.

Mais uma vez, a colaboração entre todas as partes será essencial nestenovo mundo da mobilidade.

Para complicar um poucomais, creio que não passarão muitos anos até que os veículos voadores passem afazer parte da paisagem das cidades. Afinal a Tesla e outros fabricantes já desenvolvemos seus protótipos.

É claro que aí vão levantar-se outras questões,nomeadamente a da regulamentação. Alguém consegue imaginar um "código daestrada do ar”? Ficção científica, dirão alguns. Atrevo-me a discordar. Quantasvezes a realidade consegue ultrapassar os nossos sonhos mais loucos. Como no "BladeRunner”…



Publicado no Vida Económica

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