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Clima, Covid e Cidades

Os efeitos de uma dupla crise – alterações climáticas e a pandemia global da Covid-19 – estão à nossa frente. Em conjunto, perturbam a nossa vida quotidiana e amplificam as consequências de uma expansão urbana crescente. Num mundo em que os nossos recursos se encontram fragilizados, o impacto da Covid‑19 revela também a dimensão das divisões socioeconómicas e evidencia a grande vulnerabilidade das nossas vidas. Para cúmulo, temos as consequências da significativa, muitas vezes não planeada expansão urbana que acresce as dificuldades quotidianas das populações das cidades, agravadas pela pobreza e precariedade.

Clima, Covid e Cidades
Há já muitos anos que tenho a firme convicção de que a fragilidade das nossas vidas urbanas é uma questão fundamental, tanto nas cidades de alta densidade quanto nos territórios de média ou baixa densidade. No nosso mundo, fortemente urbanizado e marcado por inúmeras condições extremas, conseguir manter a continuidade dos serviços em tempos de crise, mais do que um desafio, é um imperativo absoluto. 
Desde o início da crise da Covid‑19, tenho dito com frequência que se trata acima de tudo de uma crise socioterritorial que põe em causa o nosso estilo de vida, de trabalho, de consumo e de mobilidade.  
De facto, para combater esta propagação viral, as medidas restritivas têm perturbado a vida diária de milhões de pessoas. Em todo o mundo, o ritmo da vida urbana abrandou, e sua configuração foi alterada. O cerne da organização e funcionamento das cidades foram fundamentalmente abalados.  
Mas apesar do argumento que as cidades estão a ficar vazias em resultado desta crise, a realidade urbana já se tornou irreversível, e o lugar que a cidade ocupa nas nossas vidas é insubstituível. 
Efetivamente, é na cidade que atualmente se desenvolve grande parte do ciclo de vida dos seres humanos. 
No entanto, consoante as fases da vida – da infância à adolescência, da idade adulta ao envelhecimento –, coexistem vários universos urbanos que, no essencial, se ignoram. Este anonimato, esta coexistência de diversas solidões, muitas vezes portadoras de ansiedade e de stress, e esta fragilidade dos idosos e das crianças são o resultado de um modo de vida que se tem vindo a desagregar.  
À falta de um exílio em massa, eis‑nos a questionar seriamente sobre o significado mais profundo da vivência num meio urbano. Esta dupla crise climática e sanitária interroga‑nos sobre como viver com estas ameaças e qual o sentido da resiliência ‑ termo muito utilizado mas nem sempre transformado em ações e planos sustentáveis. 
Também acredito que a resiliência não é a melhor ou a mais rápida forma de nos ajudarmos a nós próprios! 
Precisamos, antes de mais, de mergulhar no mundo em que vivemos, de compreender todas as nossas condições de vida – e também de conhecer a nossa história, o nosso passado, o contexto, a evolução e as transformações ocorridas nas nossas cidades para podermos projetar e antecipar o futuro.  
Responder às necessidades urbanas e do território é, acima de tudo, valorizar uma abordagem sobre a utilização e os serviços que devemos privilegiar de modo a criar novas relações entre os tempos e os espaços de vida. Devemos também aprender a conviver com o risco, o inesperado, que, quando surge – mesmo que estejamos bem preparados, – nos desestabiliza sempre. É este o sentido profundo daquilo a que chamamos a cidade sensível, a cidade viva. 
A reflexão e a ação à escala das cidades e dos territórios, nestes tempos difíceis que vivemos, demonstram a importância fulcral de compreender os fatores de vulnerabilidade estrutural a uma tripla escala: ambiental, económica e social. É aqui, portanto, que está a chave da análise para detetar os «cisnes negros», os sinais fracos. 
Face a estas vulnerabilidades socioespaciais, temos de construir a montante indicadores e desenvolver ações, nomeadamente relacionais, de melhor convivência, de orgulho de pertença a um território, essenciais para projetar a complexidade do tecido urbano para o futuro. Foi o que nos aconteceu com a crise da Covid‑19, abruptamente mergulhados na mais dura crise sanitária da história moderna.  
Paradoxalmente, esta ameaça mundial revelou um dos factos mais importante deste século: a força das nossas cidades. Pela primeira vez, temos de refletir e agir sobre a saúde dos cidadãos, não nos limitando a prestar‑lhes cuidados médicos, mas propondo‑lhes um outro ritmo de vida, uma sociabilidade diferente. 
Mais do que nunca, a construção de uma melhor convivência depende do lugar que as cidades ocupam nas nossas vidas, da capacidade de atração que têm, e da qualidade da sua governação. A cidade viva, a nossa inteligência urbana, será aquela que souber compreender a importância vital da sua vulnerabilidade e colocar em prática uma capacidade diária de resiliência, tendo em vista uma melhor qualidade de vida. 
O ritmo da vida urbana foi cadenciado para que todos se possam deslocar de um local para outro, «mais rapidamente e mais longe», sem nenhum controlo do tempo útil. Estas inúmeras deslocações, que interferem com o tempo que poderíamos dedicar aos nossos entes queridos, conduzem‑nos a uma forma de cansaço, ou mesmo para alguns a uma espécie de desconfiança, de medo do outro e do que é diferente. 
É necessário mudar, aqui e agora, pois esta pandemia obriga‑nos a fazer de maneira diferente a ligação entre casa e local de trabalho, e, simultaneamente, a repensar este modo de vida de produção e de consumo, que ignora a proximidade. 
Esta crise obriga‑nos a repensar as distâncias, tornando‑se, deste modo, uma oportunidade de pensar de outra forma, não a cidade, mas a vida na cidade, de recuperar a força da proximidade, de desenvolver o maior número possível de serviços perto de casa. Mas também de uma outra temporalidade, a do quarto de hora a pé ou através de formas ativas de mobilidade – bicicleta, andar a pé, trotineta –, incentivando, assim, a «proximidade multisserviços». 
É a redescoberta da vizinhança e de espaços públicos tranquilos, arborizados, verdes, renovados, para serem lugares de vida, de diversidade, de encontro. O objetivo é que a rua, nas palavras de Jane Jacobs, a militante e filósofa da cidade, «redescubra os seus olhos», para que, além das formas, a cidade possa ser moldada pelas diferentes utilizações que lhe são dadas.   
Um lugar, várias utilizações, e para cada utilização novas possibilidades: é esta a cidade policêntrica, a cidade do quarto de hora, como afirma Pascal «uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte, e cuja circunferência não se encontra em parte nenhuma». 
As utilizações propostas e as infraestruturas polimórficas são infinitas. Uma discoteca que à tarde se transforma em ginásio; um centro desportivo que acolhe atividades de apoio escolar; oficinas de reparação de  objetos num comércio de proximidade; uma peça de teatro representada num apartamento; canções partilhadas de janela em janela, como vimos nos períodos de confinamento assinalados por inúmeras iniciativas de cidadania. 
Esta é também a outra virtude desta abordagem: uma participação ativa da cidadania para fazer viver esta proximidade, para todos terem a possibilidade de aceder às funções sociais essenciais em proximidade, nomeadamente, à habitação, ao trabalho, ao abastecimento, aos cuidados de saúde, à educação e à realização pessoal. 
Esta descentralização da cidade é um roteiro para um futuro ecológico e humanista, que oferece um novo horizonte urbano, uma cidade onde volta a existir tempo, um tempo útil e criativo para cada cidadão e a sua família. 
Este horizonte está ao alcance de todas as cidades, desde que seja traçado um roteiro.  
A cidade da proximidade, a «cidade do quarto de hora» em zonas compactas, «o território da meia hora» em zonas de média e baixa densidade, permite reconstruir a solidariedade e a entreajuda, que são os verdadeiros promotores do bem‑estar. É hoje fundamental para remediar a fragilidade do tecido urbano e da relação dos habitantes com os respetivos territórios. 
Amanhã, depois de ultrapassarmos estes tempos difíceis, será necessário manter este dinamismo e recordar que deslocar‑se todos os dias para um local de trabalho, muitas vezes distante, é mais uma questão de manter uma estrutura hierárquica imposta do que uma verdadeira necessidade funcional. 
Quando a única solução é silenciar uma certa forma de vida, torna‑se também evidente que a cidade da proximidade é uma oportunidade de viver de outro modo. 
É hoje fundamental para remediar a fragilidade do tecido urbano e das relações dos habitantes com os respetivos territórios. É outra leitura da vida na cidade, que, pela proximidade feliz numa cidade policêntrica, entrelaçada, multisserviços, nos leva a pensar que a metamorfose rumo ao bem comum é o desafio da próxima década, aqui e em qualquer parte do mundo. 




Carlos Moreno é Senior Professor na Universidade de Paris 1 Pantheon‑Sorbonne‑ IAE (Sorbonne Business School), em Paris. 
Investigador e cientista de renome internacional, é reconhecido pelo seu pensamento e trabalho inovador sobre questões urbanas.  
 É conselheiro científico de figuras nacionais e internacionais ao mais alto nível, na qualidade de enviado especial para as Cidades Inteligentes da Presidente da Câmara de Paris.  
Está ligado a vários temas de relevância internacional aportando uma perspetiva inovadora sobre os temas urbanos e oferecendo soluções aos problemas enfrentados pelas cidades, metrópoles e territórios no século XXI. Alguns dos seus conceitos já percorreram o mundo: a Cidade Inteligente Humana, a Cidade de 15 Minutos, o Território de 30 Minutos. Recebeu a Medaille de la Prospective da Academia Francesa de Arquitetura. 
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