Global Risk Perspectives - Monthly insights on geopolitics, trade & climate

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Bernardo Pires de Lima
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29.04.2022

Cinco dinâmicas globais que marcarão a década

Nesta prolongada fase de choques sistémicos, provocados pela pandemia e pela invasão da Ucrânia pela Rússia, há pelo menos cinco dinâmicas que tendem a marcar a política internacional nos próximos anos. Alguns dos sinais estão já à vista de todos.
A primeira resulta da competição geopolítica entre grandes potências. A compatibilidade, ou ausência dela, entre estatutos de poder assumidos, como o que resulta da era unipolar norte-americana, o que decorre da vital ambição paritária da Rússia com base num revisionismo imperial, e o que emerge das múltiplas capacidades singulares da China, ainda em definição sobre a geografia de interesses estratégicos, e o que estrutura as múltiplas vantagens da Índia, numa radial de parcerias não necessariamente compatíveis. Acresce a este quarteto nada harmonioso, a clarificação de poder que a União Europeia conseguirá desempenhar e, por fim, a consolidação ou não das diversas potências regionais em África (Nigéria, Egito, África do Sul), na América Latina (Brasil, México, Colômbia) e no Sudeste asiático (Japão, Coreia do Sul, Indonésia). Ou seja, que ordem internacional acomodará este puzzle e em que modus operandi assentará a relação entre elas, tenham ou não capacidade nuclear. Não é claro ainda como evoluirá, mas os sinais são de predisposição para certos níveis de confrontação comercial, ideológica, energética e tecnológica. O alarmismo sobre o patamar militar, justifica-se.



A segunda resulta da competição tecnológica entre grandes potências e pequenos ou médios países ricos em recursos minerais e energéticos. A digitalização das economias acelerada pela pandemia, a par da necessidade de reconstruir cadeias industriais e logísticas mais previsíveis, baratas e sustentáveis, está já a exigir a prospeção e exploração mineral, base da cadeia de valor na nova etapa da globalização económica (lítio, níquel, bauxite, manganésio, etc). A articulação ou confrontação por estes recursos ditará o nível de conflitualidade interna em países frágeis do ponto de vista institucional, mas igualmente o nível de destruição ambiental que estarão dispostos a assumir. Tecnologia e energia são por isso os motores da transição económica global, entre aqueles que marcarão a sua vanguarda e os que ficarão reféns da ultrapassagem pelo tempo. A regulação destes comportamentos, mas sobretudo dos seus impactos, será fundamental à segurança e estabilidade internacionais. 



Fonte: European Commission report on the 2020 criticality assessment

A terceira resulta da competição pela água, seja pela relevância na subsistência económica e na paz social, seja pelo acesso a oceanos e mares como motores do comércio global, como é o caso da navegabilidade na emergente rota do Ártico ou da ligação entre o Mar Negro e o Mediterrâneo, pelo congestionado estreito do Bósforo. Não é que o tema seja particularmente novo – foi, aliás, alvo de análise mais extensa nesta série de artigos, no passado mês de janeiro -, mas hoje 40% da população mundial vive em "escassez de água”, cujo efeito é apontado como gerador de migrações forçadas na ordem dos 700 milhões de pessoas até 2030. A chamada hidropolítica atravessa uma disputa tremenda perante os níveis alarmantes de aquecimento climático, subida do nível dos mares, secas prolongadas e gestão conflitual de caudais de alguns rios vitais às economias africanas, do Médio Oriente ou asiáticas, como o Nilo, o Tigre, o Eufrates, o Amarelo, o Yangtzé ou o Mekong. 
A quarta dinâmica resulta do choque entre democracias e autocracias, sendo estas hoje maioritárias pela primeira vez no século XXI. Pressionadas internamente por movimentos inorgânicos, populismos histriónicos, nacionalismos agressivos, entrincheiramento ideológico, descrédito das instituições, desigualdades cristalizadas, e declínio dos media tradicionais, as democracias precisam de cuidar da sua saúde para não exponenciarem as metástases que as corroem por dentro. De fora, o revisionismo histórico de autocracias influentes, a par de uma concentração de poder compatível com o aumento da riqueza gerada, têm dado uma confiança a estes regimes que, não só servem de inspiração a muitas regiões do mundo, como pressionam os méritos da democracia, do pluralismo, da separação de poderes e do respeito pelas várias liberdades. A dinâmica de conflitualidade entre estes universos e a forma como forem ultrapassados alguns dos seus anátemas, ditarão a sustentabilidade das democracias tal como as temos conhecido. 


Fonte: Economist Intelligence Unit

A quinta dinâmica é demográfica, quer pelo aumento da população global (dos 7,6 mil milhões em 2021, para 8,6 em 2030), quer pela concentração no final da década de 75% das pessoas em megametrópoles com mais de 10 milhões de habitantes, localizadas essencialmente em África e na Ásia. Ora, este fluxo está já a gerar uma pressão acrescida à capacidade de acolhimento e integração nas grandes cidades, à resposta coordenada entre os serviços na educação, saúde, habitação e mobilidade e, claro está, nos impactos ambientais, que precisam de ser contidos para travar os efeitos globais alarmantes. Os vários níveis de resposta política a estas variáveis também implicam uma disponibilidade orçamental permanente e até uma ascensão internacional de governadores e presidentes de câmara como figuras políticas centrais da globalização, em disputa por protagonismo com chefes de Estado e de governo. 


Fonte: United Nations, The World’s Cities in 2018 report

Antecipar tendências através de alguns sinais consolidados no curto-prazo é um imperativo para a qualidade das políticas públicas, esbatimento das desigualdades, coesão social e territorial e, também, para um mais integrado e previsível relacionamento entre as nações. Sem esse exercício, o choque sistémico é garantido, os riscos para as empresas disparam e a volatilidade social e política tornar-se-á banal. 





Disclaimer: Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.
Os conteúdos e opiniões expressos neste texto são da exclusiva responsabilidade do seu autor, nunca vinculando ou responsabilizando instituições às quais esteja associado.

Bernardo Pires de Lima nasceu em Lisboa em 1979. É investigador no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, analista de política internacional na RTP e Antena 1, consultor político do Presidente da República, presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, e ensaísta, tendo publicado, entre outros, A Síria em Pedaços, Putinlândia, Portugal e o Atlântico, O Lado B da Europa e Portugal na Era dos Homens Fortes. Foi visiting fellow no Center for Transatlantic Relations da Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, investigador associado no Instituto da Defesa Nacional, colunista do Diário de Notícias e analista na TVI. Entre 2017 e 2020 liderou a área de risco político e foresight na FIRMA, uma consultora de investimentos exclusivamente portuguesa. Viveu em Itália, na Alemanha e nos EUA, mas é a Portugal que volta sempre. 
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