Global Risk Perspectives - Monthly insights on geopolitics, trade & climate

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Bernardo Pires de Lima
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18.05.2021

Roteiros de curto prazo

A primeira grande linha passa pela vontade da Casa Branca reverter rapidamente a postura da administração Trump. De beligerante a diplomática, de transacionável a previsível, de agressiva a negociadora, de unilateral a multilateral, de caótica a organizada, de casos constantes a zero polémicas. O acerto na gestão da vacinação, a aprovação dos grandes pacotes financeiros federais de apoio à crise, e as dinâmicas internacionais criadas levaram o FMI a apontar para uma recuperação da economia americana mais rápida do que se prevera. Isto é desde logo importante para Biden atacar as eleições intercalares para o Congresso (Novembro de 2022), mas para gerar confiança no sistema internacional de alianças que muito espera dos EUA. A tendência é para agregar aliados no Indo-Pacífico e na Europa, diminuindo a esfera crescente de influência da China. É neste diapasão que muitas democracias terão de fazer escolhas difíceis nos próximos tempos: no digital, nas infraestruturas, na banca, na indústria farmacêutica, na defesa, na energia. Mais: as economias europeias mais ligadas à recuperação americana (Reino Unido, Irlanda, Países Baixos, Alemanha) estão expectantes sobre esse roteiro para poderem acompanhar projeção económica à política. Isto é particularmente importante quando em Berlim poderemos ter, a partir das legislativas de setembro, um governo liderado pelos Verdes mais hostil a Moscovo e Pequim; uma gestão sensível no Reino Unido à coesão interna, fruto das eleições na Escócia e das tensões na Irlanda do Norte; ou uma desarticulação maior entre vários partidos holandeses. 
Uma outra linha passará pelos ritmos de recuperação económica pós-Covid. As principais projeções apontam para retomas mais aceleradas nas grandes economias, como a americana, chinesa, japonesa, alemã ou britânica, contrastando com ritmos mais lentos entre economias emergentes, como a turca, brasileira ou colombiana. Além dos efeitos na estabilidade política interna e na confiança em ações externas, podemos assistir a fugas de capitais destas últimas, agravando-se o fosso num G20 que, além dos desequilíbrios macroeconómicos, apresenta um aumento significativo na média da dívida pública dos seus membros de 103% do PIB em 2021, em contraste com 82% em 2019. Ou seja, a pressão económica caminha em paralelo à pressão financeira, o que além das vulnerabilidades criadas pode levar a erros de avaliação regional, nomeadamente no envolvimento em crises no Médio Oriente, na América Latina ou na Ásia Central, agora que a missão de estabilização da NATO no Afeganistão terminará. 
Uma terceira linha será definida pela tipologia das recuperações, estreitamente ligadas à natureza das sociedades pós-pandemia. Percebemos ao longo do último ano que, apesar do tecido empresarial que dificilmente terá sobrevivido, existiu uma adaptabilidade alargada do comércio e dos negócios, ajustando modelos de negócio, cadeias produtivas, trabalho remoto, para criarem novos produtos e serviços. Todo este período de ajustamento forçado estará na base da generalidade das economias mais avançadas que terão ainda à disposição fundos estatais ou supraestatais para consolidarem essas transições. Mas há, sobre isto, pelo menos dois pontos a reter.
O primeiro diz-nos que uma digitalização acelerada e maciça das economias não vai ser uma dinâmica harmoniosa entre todos os países, o que gerará desequilíbrios. Por exemplo, se tivermos em conta o ranking do Financial Times sobre as 1000 empresas europeias que mais cresceram entre 2016 e 2019, verificamos que das 50 primeiras, 16 são tecnológicas e 5 são Fintech, os dois principais sectores neste grupo. Ou ainda que na mesma meia centena, 14 são britânicas, 10 alemãs, 5 italianas, 4 francesas, 4 holandesas e 3 espanholas. Não há nenhuma portuguesa nas 100 primeiras (só surge na 111ª posição), sendo que o país tem apenas 7 em mil. Isto leva ao segundo ponto. É preciso equilibrar serviços tecnológicos de última geração com capacidade industrial, que não só absorva as novas gerações qualificadas, mas também requalifique quem parece ficar para trás, incorpore ciência, digitalização e seja portadora de mais valias no mercado regional ou nas cadeias de valor globais. Segmentos como os têxteis, a mineração associada à eletrónica ou aos transportes, mas também a agricultura, o mar e as energias limpas podem dotar alguns países menos competitivos tecnologicamente de atributos endógenos suficientemente diferenciadores para se projetarem na globalização pós-Covid. 


Através de uma quarta linha, no seguimento do que já foi dito, percebemos que a política orçamental adotada foi expansionista e não restritiva, o que impacta a dívida, o défice, mas também faz do Estado um pilar das sociedades contemporâneas, previsivelmente através de maior presença na redistribuição da riqueza, aumentando a carga fiscal aos que mais têm, e apertando o cerco às grandes multinacionais useiras em "planeamento fiscal”. Politicamente, haverá um período de social-democratização mais ou menos consensualizado, com naturais impactos na oferta partidária, que tenderá a agregar-se em seu redor ou, ao invés, a disputar com vigor a sua validade. No fundo, este período encerrará um outro, iniciado após a crise de 2008 e que fragmentou os sistemas partidários um pouco por todo o Ocidente, segmentando a representação parlamentar a níveis históricos, aumentando o ruído, o protagonismo das franjas e dificultando a formação de governos estáveis. Espanha, por exemplo, teve cinco eleições legislativas entre 2011 e 2019. 
Esta tendência social-democrata, que no caso da Alemanha abrange um arco eleitoral entre o SPD, os Verdes e uma parte da CDU órfã de Angela Merkel, está confortável com o reforço do papel do Estado e, em certa medida, favorável a dotar a União Europeia de mais instrumentos e competências para fazer face a futuras crises, sejam sanitárias, migratórias ou financeiras. É este debate que provavelmente marcará a Conferência para o Futuro da Europa, uma dinâmica que terá, do outro lado do Atlântico, uma administração Biden que tentará implementar o maior plano de desenvolvimento económico da história americana. 
Isto significa, em tese, que a convergência política transatlântica tenderá a ser acompanhada por uma dinâmica sócio-económica mais aproximada do que nunca, o que pode favorecer a reabertura de um acordo comercial ambicioso, uma estratégia conjunta de regulação da governação digital, metas mais ambiciosas para combater as alterações climáticas e uma agenda reformista comum para algumas organizações multilaterais relevantes, como a OMC e a OMS. 
De uma coisa podemos estar certos: quanto maior a convergência transatlântica, maior a apetência de potências adversárias para minar esse entendimento. 



Disclaimer: Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa.
Os conteúdos e opiniões expressos neste texto são da exclusiva responsabilidade do seu autor, nunca vinculando ou responsabilizando instituições às quais esteja associado.

Bernardo Pires de Lima (Lisboa, 1979) é actualmente Conselheiro Político do Presidente da República Portuguesa. Além disso, é Investigador Associado do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, analista de política internacional do Diário de Notícias, da RTP e da Antena 1, e presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Foi Investigador do Center for Transatlantic Relations da Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, e do Instituto da Defesa Nacional, em Lisboa. É autor de oito livros sobre política internacional contemporânea, sendo o mais recente Portugal na Era dos Homens Fortes: Democracia e Autoritarismo em Tempos de Covid (Tinta-da-China), publicado em Setembro de 2020. 

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